Preciso ir.
Entretanto:
"Vos perdoo por vos traíres queridos mestres meus.
Nada me afasta do meu instintivo ímpeto de vos deixar.
Nenhuma conquista, nenhum novo record,
Nenhum desafio de tribuna, nenhuma dificílima peça para Violão,
Nenhuma sequência perfeita de gestos, golpes, pensamentos,
Nem honras nem glórias,
Tampouco lumes de salvação.
Tudo isto pode coisa alguma ante minha lusitana e bárbara vocação de navegar"
Meus verdadeiros mestres não se apresentam como tal.
Não alardeiam técnicas, ou saberes,
Vem e vão com a brisa e a chuva, e sol e seca e raio e fogo.
Refrescam e nutrem seguindo a essencial natureza humana de compartilhar,
E queimam e brilham, seguindo um desígnio de forças da natureza.
Incineram a própria reputação para se manterem sem amarras,
E, na antecâmara da vida, se auto-gestarem na pureza das próprias cinzas.
Raríssimos seres estes, os anarquistas e cínicos no sentido pré-socrático.
Descendo fraternalmente dessa linhagem dispersa e transnacional de pessoas, mais, busco-a,
Como quem afina um instrumento.
"Homens de Atenas!" disse Sócrates,
A maioria traduz para "Cidadãos de Atenas!"
Qual a diferença entre um homem e um cidadão?
Segundo o próprio Sócrates,
O cidadão é o cadáver de um homem.
Quero a seiva da vida, como uma partícula busca sua antipartícula para pimba!:
Luz e calor em fugazes micro-filigranas arco-voltaicas,
Se dispersando lentamente por uns nanosegundos pelo vácuo escuro.
Na distância dos anos entrelaçados, os tempos de discípulo
Não separam-se uns dos outros do presente,
A farda do Colégio Militar, a gravatinha do bancário,
As toneladas de luar da moradia estudantil, as madrugadas de ensaio
E trabalhos acadêmicos e poesia e bares e
Mulheres e seus corpos e bocas plenos de néctar,
Tudo isso vibra em cada célula do meu corpo hoje,
Pulsam, circulam, irrigam e me alimentam.
Eu, sistema analógico,
Avesso do divino.
Desprezei todos os votos de confiança de meus mestres,
Joguei da ponte sobre o rio suas tão cândidas esperanças,
Simplesmente para devolver ao mar, o sal de suas lágrimas,
O desídia de seus olhares e o desalinho de suas lições.
É verdade, amo o longe e a miragem,
O horizonte fugidio, as canções flutuantes feromônios,
Os sentimentos que dormitam nas profundezas da alma dos velhos,
A leveza das verdades infantis sob a pele.
O mundo tem sede de grandes conquistas,
E todos esperam para serem conquistados,
Tudo será conquistado, tudo virá abaixo, entre tambores e hinos e esquizofrenia supersônica.
Desprezo o amor vendido e falado,
Gosto de passear pelas vielas da solidão,
Renegando a vida arquitetada e manipulada,
Rodopio ao vento e venero a tempestade que vem vindo.
Em espírito meus mortos me congratulam, questionam, acenam, riem-se de mim,
Amar esse estar-se jogado entre estranhos tão íntimos.
Só posso ser discípulo num mundo cosmopolita,
Meus verdadeiros mestres são os embates
Entre minhas ficções e as tuas,
Entre a concretude dos sonhos e a verossimilhança de projetos de coisas, de homens,
E maquinismos desejantes.
Os embates são mesmo uma arte à parte,
O vento que enche a vela,
Vai nave, levanta voo!
De resto e sem cerimônia, as vontades podem se enlaçar,
Material e artesão,
Arqueiro e arco, instrumento e músico.
Minhas subjacentes pequenas e verdadeiras mentiras,
Venceram as verdades entrincheiradas vida afora.
Pontual com o caos
Onde funções, propósitos e vontades volitam aleatoriamente,
Aprisionados pela entropia da falta de ironia socrática de todos nós.
Quem tentar se apropriar do que é livre, merece ser enganado.
Se declino do dever de debelar os escravagistas da consciência,
Estou em débito com a natureza,
E mais cedo ou mais tarde haverá um acerto de pulso, ou de clock entre memória e processador,
Como queiram.
Quero ser bom e impecável naturalmente,
Fruir meu trabalho, esquecer do lazer, fazer arte por exocitose simples.
Pessoas podem coexistir filantropicamente,
Ou belicamente, e mesmo politicamente, de forma civilizada ou primitiva,
Quem manda é o timoneiro que está sob a quilha de cada crânio.
Não se prende um pensamento com palavras definitivamente,
Não se corta uma fatia de onda do mar e se leva pra casa,
Não se domestica um homem de verdade,
Não se faz anarquia sem tê-la por si.
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