quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sinto tanto...

Onde estão vocês seus filhos da peste?
Meus velhos companheiros incendiários,
Dinamitadores da própria reputação,
Altivos andarilhos noturnos,
Gatunos da moral burguesa,
Chamo por vocês nesse momento extremo,
Quando a vida tornou-se pacífica, medíocre e próspera,
Vergonhosa e humilhante perante a gloria de nossa irônica história
Pra onde foi aquela poesia que vinha dos órgãos sexuais e assemelhados?
Que fluía pelos poros exponencialmente proporcional
Ao vinho, às horas fruídas sem culpa ao sereno, às regras quebradas,
Às melodias vertidas ao léu a esmo.
Sempre aos beijos com a loucura,
Cavalgando a vida aos galopes,
Em promíscua interatividade com todas as cores do subconsciente.
Em vão chamo por vocês,
Nossas vitórias esculpidas em fumaça e álcool no astral noturno da cidade.
Nossa única derrota foi dormir!
Essa nossa borbulhante vitória:
Sermos passageiros degustadores de uma saúde homericamente febril.


 


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sobre mães e filhos

Temes algo garimpeiro?
Sabes que és filho da terra?
E que ela jamais abandona um filho seu?

Cuidado porém, garimpeiro,
Lembra-te que és irmão das águas, das plantas e dos animais.
Não os ofendas, pois mães castigam de forma dura,
Os filhos que  transformam em pedra seus corações.





Escritos de caminhada



Somos os arquitetos e os engenheiros,
Os pedreiros, e os serventes, 
a areia e o cimento,
Somos a casa e os moradores
O jardim e o quintal,
Enfim somos a rua
Por que passamos

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Bang-bang curvelano

Em vez de cavalos, camionetes e pick-ups,
No lugar de armas, maços de dinheiro,
Aqui onde se garimpam cristais,
Os cowboys são chineses de coração de pedra,
Suas almas minguaram, só há lucro e  ganância.

Onde há bons garimpos, lá estão eles,
E seus cães brasileiros, a serviço da usura oriental.
E lá também estão os garimpeiros,
Fortes como aço, burros como tatus.

Enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé.
É assim desde que o mundo é mundo.
Quem nasceu pra boi não chega a guia.
Está sendo muito difícil girar com essa insanidade.



Solapas, solapas e o edifício continua em pé


Vi aliens numa fila de cinema,
Nada faz sentido.
Assisti a um farwest,
Minha vida sem sentido.
Não assisti ao filme de zumbis,
Encontro alguns pela rua.
Abandonei meu trabalho,
Fui ao encontro do novo dia.
Olhei pro céu negro pontilhado de estrelas,
Esqueci minha fala sem gesto nesse teatro.

Pessoas  de fel cruzam meu caminho,
posso amaldiçoar carrapatos e maldizer víboras.
Viver a amolar punhais,
Tocaias virtuais.

O que há por traz de péssimas canções?
Alma atormentada,
Como dentro das armas,
Almas lisas ou raiadas

Quase nada

Zombei da morte a vida inteira.
Sátiro bêbado a perseguir ninfas,
Fauno abandonado,
Absolutamente descrente na humanidade.
Buscador da arte dos loucos.

Tantos livros, tantas palavras,.
E mal consigo falar.

Tantas leis, tantas armas,
E não nos fazemos respeitar.

Tantas pontes, prisões,  universidades e museus
 E fatalmente morremos mal entendidos.

Ultimamente só beijo em despedidas.
Abraços apenas aos companheiros de delito,
Vizinhos de cela, colegas no refeitório do presídio.

O que iguala a todos vocês do mundo  ai fora.
É sua vestimenta de sanatório.

Decifro dia a dia meu labirinto,
De dentro pra fora,
Em pouco tempo estarei só e em paz.
Enquanto durar esse dia.

Enquanto houver guerreiros inimigos em minha sala de estar, ( a tarde vai plena)
Estarei aqui fazendo barulho por quase nada.

Ego

Não posso pensar em desgraças o tempo todo.
Nem me condoer com todos os infortunados do caminho.

Não vou me obcecar por todos os riscos da vida.

Querer uma explicação para tudo, e fazer o quê com ela?
Louvá-la até que apareça outra mais bela? Uma mulher?

Sonho que mudei o mundo,
Acordo e encontro tudo como estava.

Me guio pelo silêncio que as ideias fazem durante o parto.
Busco sem dar por isso a descoberta.

Justo eu que por um triz fui artista fiel,
Logo eu, cão deitado ao pé de mim mesmo.

Louloucura

O louco encontra a louca
Dentro de si trazem tesouros,
Amor à vida e culpa pouca,
E coragem e força de cem touros.

Quando o orgasmo da louca espouca,
Treme o louco fogoso potro,
E geme a louca lânguida potra
Flutuam os dois num universo outro.

Cavalgam  colinas imaginárias
Onde lençóis são fina relva
À parte o dominó de carícias várias.

As pelves se roçam, e vêm e vão.
Entre sonos e gosos a vida dispara,
Cavaleiro e potranca, amazona e alazão.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A noite passada

A noite passada me pegou no colo,
Não como quem ama o que pega,
Mas como uma maldita mãe adolescente,
E sua estúpida raiva de criança mal humorada.

A noite passada me jogou de um pesadelo a outro
Do sono à lucidez, na solidão de quem flutua imóvel
Por sobre abismos internos, infinitos, 
De onde se percebe a lentidão da luz pelo cosmo


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Anarkaótico

Preciso ir.
Entretanto:
"Vos perdoo por vos traíres queridos mestres meus.
Nada me afasta do meu instintivo ímpeto de vos deixar.
Nenhuma conquista, nenhum novo record,
Nenhum desafio de tribuna, nenhuma dificílima peça para Violão,
Nenhuma sequência perfeita de gestos, golpes, pensamentos,
Nem honras nem glórias,
Tampouco lumes de salvação.
Tudo isto pode coisa alguma ante  minha lusitana e bárbara vocação de navegar"


Meus verdadeiros mestres não se apresentam como tal.
Não alardeiam técnicas, ou saberes,
Vem e vão com a brisa e a chuva, e sol e seca e raio e fogo.
Refrescam e nutrem seguindo a essencial natureza humana de compartilhar,
E queimam e brilham,  seguindo um desígnio de forças da natureza.
Incineram  a própria reputação  para se manterem sem amarras,
E, na antecâmara da vida, se auto-gestarem na pureza das próprias cinzas.
Raríssimos seres estes, os anarquistas e cínicos no sentido pré-socrático.
Descendo fraternalmente dessa linhagem dispersa e transnacional de pessoas, mais, busco-a,
Como quem afina um instrumento.

"Homens de Atenas!" disse Sócrates,
A maioria traduz para "Cidadãos de Atenas!"
Qual a diferença entre um homem e um cidadão?
Segundo o próprio Sócrates,
O cidadão é o cadáver de um homem.

Quero a seiva da vida, como uma partícula busca sua antipartícula para pimba!:
Luz e calor em fugazes micro-filigranas arco-voltaicas,
Se dispersando lentamente por uns nanosegundos pelo vácuo escuro.

Na distância dos anos entrelaçados, os tempos de discípulo
Não separam-se uns dos outros do presente,
A farda do Colégio Militar, a gravatinha do bancário,
As toneladas de luar da moradia estudantil, as madrugadas de ensaio
E trabalhos acadêmicos e poesia e bares e
Mulheres e seus corpos e bocas plenos de néctar,
Tudo isso vibra em cada célula do meu corpo hoje,
Pulsam, circulam, irrigam e me alimentam.
Eu, sistema analógico,
Avesso do divino.

Desprezei todos os votos de confiança de meus mestres,
Joguei da ponte sobre o rio suas tão cândidas esperanças,
Simplesmente para devolver ao mar, o sal de suas lágrimas,
O desídia de seus olhares e o desalinho de suas lições.

É verdade, amo o longe e a miragem,
O horizonte fugidio, as canções flutuantes feromônios,
Os sentimentos que dormitam nas profundezas da alma dos velhos,
A leveza das verdades infantis sob a pele.

O mundo tem sede de grandes conquistas,
E todos esperam para serem conquistados,
Tudo será conquistado, tudo virá abaixo, entre tambores e hinos e esquizofrenia supersônica.

Desprezo o amor vendido e falado,
Gosto de passear pelas vielas da solidão,
Renegando a vida arquitetada e manipulada,
Rodopio ao vento e venero a tempestade que vem vindo.

Em espírito meus mortos me congratulam, questionam, acenam, riem-se de mim,
Amar esse estar-se jogado entre estranhos tão íntimos.

Só posso  ser discípulo num mundo cosmopolita,
Meus verdadeiros mestres são os embates
Entre minhas ficções e as tuas,
Entre  a concretude dos sonhos e a verossimilhança de projetos de coisas, de homens,
E maquinismos desejantes.

Os embates são mesmo uma arte à parte,
O vento que enche a vela,
Vai nave, levanta voo!

De resto e sem cerimônia, as vontades podem se enlaçar,
Material e  artesão,
Arqueiro e arco, instrumento e músico.

Minhas subjacentes pequenas e verdadeiras mentiras,
Venceram as verdades entrincheiradas vida afora.

Pontual com  o caos
Onde funções, propósitos e vontades volitam aleatoriamente,
Aprisionados pela entropia da falta de ironia socrática de todos nós.

Quem tentar se apropriar do que é livre, merece ser enganado.
Se declino do dever de debelar os escravagistas da consciência,
Estou em débito com a natureza,
E mais cedo ou mais tarde haverá um acerto de pulso, ou de clock entre memória e processador,
Como queiram.
Quero ser bom e impecável naturalmente,
Fruir meu trabalho, esquecer do lazer, fazer arte por exocitose simples.
Pessoas podem coexistir filantropicamente,
Ou belicamente, e mesmo politicamente, de forma civilizada ou primitiva,
Quem manda é o timoneiro que está sob a quilha de cada crânio.
Não se prende um pensamento com palavras definitivamente,
Não se corta uma fatia de onda do mar e se leva pra casa,
Não se domestica um homem de verdade,
Não se faz anarquia sem tê-la por si.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Ôh José...

Ôh José, por que Dona Ilza?
Ôh Capitão, por que a farda?
Ôh Jujé, por que Marisa?
Ôh José, por que não só?

Capitão cadê a guerra?
Kardec cadê a verdade,
Que vão me levar aonde tenho que ir?

Kátia cadê meu filho?
Marta cadê meu poema?
Priscila cadê meu mapa?
Adriana cadê minha paixão?
Juliana cadê minha canção?
Sylvia cadê minha ironia sobre a coragem?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sem ágora

Diógenes o cão, fatidicamente meu irmão.
Como tu, busco por alguém digno.
É inútil, lágrimas sobre a areia,
Soluços de chama ao sol.

Eu poeta sem aptidão para a mendicância, como tu,
Um Sócrates bêbado a pedir esmolas às estátuas,
Habituando-me à invisibilidade, a não ser percebido,

Sendo lido por estátuas com olhos vazados,
Repreendendo-me a todo momento,
Por me recusar a ficar de joelhos,
Tomando minha cicuta,
Em pé ao sol nascente